PRADO 1946 – A ALEGRIA TEIMOSA DO CARNAVAL
Por Daniel Rocha
Em 1946, o Brasil ainda estava no clima de comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial. Em Prado, no extremo sul da Bahia, a vida seguia simples: cidade “descalça”, iluminada por lampiões a querosene, vivendo da pesca, da mandioca, do cacau, do comércio e, claro, da alegria de um povo que parecia esquecido no mapa do país.
Mas nem tudo era festa. Na segunda metade da década, Prado começou a sofrer com o avanço das águas do rio Jucuruçu, que ia comendo a cidade aos poucos. A construção de um cais era urgente, mas os pedidos de ajuda batiam na porta errada: ninguém ouvia.
E isso não acontecia só em Prado. Belmonte, Porto Seguro e outras cidades do litoral do extremo sul também viviam isoladas economicamente de outras regiões do estado, largadas à própria sorte. Porto Seguro, símbolo do “descobrimento” do Brasil, era talvez o exemplo mais gritante desse abandono. Mesmo assim, quando chegava o carnaval, o povo de Prado esquecia os problemas.
Em março de 1946, a festa teve um gosto especial: era o Carnaval da Vitória, celebrando o fim do nazi-fascismo e a vitória das Nações Unidas. Era alegria com sentido histórico em um momento em que a região esquecia seus problemas.
Quem contou essa história foi o jornalista Andrade Sucupira, da Associação Sergipana de Imprensa, em uma carta publicada na Revista Nação Brasileira. Ele descreveu sua chegada a Cumuruxatiba, distrito de Prado, e sua passagem pelas cidades da região. Segundo seus relatos, no distrito ele foi acordado às três da manhã pelo barulho animado do carnavalesco Zé-Pereira.
Ao longo do dia, o pessoal do “Clube Deixa Saudades” tomou as ruas, cantando marchinhas que se misturavam ao som do mar, com músicas como “Ai, Ai, Cecília” e “Sarambá”.
Dois dias depois, já em Prado, Sucupira viu o que chamou de “alegria perfeita”. Não era um carnaval luxuoso como o das grandes capitais, mas tinha um peso enorme. Para ele, aquela festa simples mostrava o espírito democrático do povo e a satisfação pela liberdade conquistada com o fim do nazi-fascismo.
Contudo, para além dos elogios à beleza do festejo, em seu relato sobre a passagem pela região, Andrade Sucupira não poupou críticas aos governos que negligenciavam o litoral sul da Bahia. Recordou que até Porto Seguro, tão simbólica na formação histórica do país, permanecia relegada a segundo plano. E fez questão de destacar que Prado, apesar das dificuldades, revelava dinamismo e potencial, merecendo maior atenção e investimento.
Em síntese, o relato sobre o Carnaval de 1946 em Prado apresenta essa dupla dimensão: de um lado, a celebração da vitória democrática; de outro, a exposição de uma terra promissora, porém esquecida pelas autoridades federais e estaduais. Fazendo lembrar que era uma região de densidade histórica e potencial econômico, mas ainda marcada pelo esquecimento no projeto nacional do pós-guerra.
Fonte:
SUCUPIRA, Andrade. Cartas do Norte: Carnaval em Prado. Revista NB, julho de 1946.
Foto: Carnaval Prado 1937


Comentários