A ITINERÂNCIA DAS MULHERES PROSTITUTAS EM TEIXEIRA DE FREITAS: PARTE 02
Um mês antes de visitar o estabelecimento no bairro São Lourenço, estive em uma casa do ramo na Avenida Getúlio Vargas, em maio de 2018, para compreender a itinerância das profissionais que atuam em Teixeira de Freitas. Ainda são oriundas de outras cidades, como nas décadas de 1970?
O local, também gerenciado por uma mulher, recebeu nossa visita para uma conversa informal com duas capixabas, de 30 e 35 anos, vindas da capital do estado, cujos nomes foram preservados. Elas responderam a algumas perguntas sobre origem e atividade.
Após se sentirem à vontade, perguntei se Teixeira de Freitas integra a rota de trabalho das profissionais do sexo que circulam pela região, como relatado nas décadas de 1970 e 1980.
Segundo elas, não existe uma rota definida ou noção clara de itinerância. “Geralmente, há trocas de informações sobre os melhores locais para ganhar dinheiro. Se existe uma rota, ela é natural”, afirmou uma delas.
Assim como as primeiras entrevistadas, as mulheres da segunda casa não se sentiram confortáveis em compartilhar detalhes da vida privada, mas se declararam “mães com contas para pagar e filhos para criar”, sem demonstrar sentimentos de alegria, culpa ou melancolia em relação à profissão.
Perguntei então sobre os motivos que as levaram a essa escolha. Elas mencionaram a necessidade de ganhar dinheiro e sustentar, cuidar e educar os filhos.
Relataram ainda que preferem não compartilhar certas informações, pois muitos clientes tendem a fantasiar sobre as mulheres da profissão como se fossem sem escrúpulos ou limites. Por isso, são procuradas para atender fantasias e necessidades, sem se preocupar em ser simpáticas com quem não está disposto a pagar, e sem se sentir culpadas ou melancólicas por exercerem a atividade.
Essas falas podem ser relacionadas às afirmações de Diniz (2006), segundo as quais as mulheres foram e ainda são ensinadas a sacrificar seus próprios desejos para suprir as necessidades dos outros, especialmente maridos e filhos.
Ao se declararem provedoras da família, reforçam a ideia de serem fruto de uma construção sócio-histórica sobre o papel feminino tradicional, que ensina a mulher a se sacrificar em prol dos outros.
Esse discurso é também reforçado por instituições sociais, como a escola, que, segundo Daniela Finco (2003), não é neutra e participa da construção desigual da identidade de gênero desde as primeiras relações da criança no ambiente escolar.
Diante do exposto, tanto neste quanto no texto anterior, observa-se que existe uma itinerância: uma rota natural, não organizada, mas abrangente, na qual essas mulheres circulam em busca de renda em locais de grandes aglomerações e também de privacidade em espaços não fixos.
Essas trabalhadoras da economia marginal não estão isentas das cobranças relacionadas ao papel feminino socialmente construído.

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