40 Anos de Teixeira de Freitas – A Cascata e o Povoado

 


Por Daniel Rocha  

A Fazenda Cascata não foi só um centro econômico e social de destaque; ela foi o ponto de partida para a infraestrutura que daria vida ao povoado que, mais tarde, se tornaria Teixeira de Freitas. Onde antes só havia silêncio e mata, surgiram estradas. Das trilhas improvisadas, nasceram vias largas, caminhões e viajantes em busca de acolhimento.  

Quincas Neto foi o visionário por trás de tudo isso. Em 1949, ele liderou a construção de uma estrada de 60 km, ligando a Fazenda Cascata a Caravelas , o que hoje conhecemos como BA-696. E ele não parou por aí.  

Com o apoio do madeireiro Eleuzíbio Cunha, Quincas expandiu as estradas da fazenda, conectando-as às trilhas abertas pelas madeireiras. Essa integração ligava a Cascata ao “Comercinho dos Pretos” e à Vila Vargas, que se desenvolvia ao longo da estrada das madeireiras, formando um pequeno centro onde hoje está a Praça dos Leões.  

Essas conexões   e trânsito proporcionado pela estrada foram decisivas para o crescimento do povoado, que na época era apenas um aglomerado de barracos e casas de madeira, carregando apelidos como Mandiocal, Tira-Banha e Perna Aberta, até se tornar oficialmente Teixeira de Freitas, em 1957.  

Dessa forma, as principais estradas de rodagem da região tinham ligação direta com a Cascata: a Alcobaça–Cascata, construída em 1941 pelo Instituto do Cacau; a Cascata–Caravelas; a emblemática Cascata–Teixeira de Freitas, de 1949; e a Cascata–Medeiros Neto, inaugurada em 1956 graças à articulação entre Quincas Neto e o deputado José André da Cruz.  

Quincas não apenas sonhava em melhorar o tráfego e facilitar o comércio na região , ele também visava retorno financeiro. Para manter as estradas, a Fazenda Cascata implementou um sistema de pedágio, cujo valor ajudava a conservar a infraestrutura, até que as vias passaram a ser gerenciadas pelo estado na década de 1960.  

A Fazenda Cascata, assim, se tornou mais do que um ponto de apoio. Era um refúgio e uma referência para viajantes, especialmente aqueles que vinham dos sertões mineiros em direção ao litoral baiano, Alcobaça, em busca de praias. Mas como eram essas jornadas? E o que fazia a Cascata se destacar no caminho?  

No livro de memórias “No Vale do Mucuri, de 1950 a 1980”, Susana Leal Santana relembra uma viagem de infância com seu pai, saindo de Teófilo Otoni rumo a Alcobaça, nos anos 1950. Ela descreve as estradas precárias, a falta de infraestrutura e os desafios da travessia, mas também recorda a exuberância da natureza, o contato com os locais e o papel da Cascata como um porto seguro.  

Relatando sua  passagem pelo então povoado no final da década de 1950, a autora destaca o povoado em formação, com casas simples, algumas serrarias em operação e os moradores vivendo o dia a dia de um lugar que começava a surgir como centro urbano e o surgimento do bairro Nova América, antiga fazenda. “Era Teixeira de Freitas nascendo”, escreve.  

Ela conta que, no meio da mata e das dificuldades, o destino dos viajantes era quase sempre a Fazenda Cascata, um ponto de descanso antes de cruzar o rio Itanhém, naquela época, de balsa, ou enfrentar as ladeiras enlameadas onde caminhões frequentemente atolavam.  

Enquanto esperavam, muitos aproveitavam para observar o cacau secando nas barcaças ou admirar as jaqueiras, cajueiros e coqueiros da fazenda, enquanto degustavam as jacas doces e os quitutes preparados no local, provavelmente vendidos na antiga venda do lugar.

Dessa forma, a  Cascata não era apenas uma parada. Era um símbolo para quem passava pela nascente Teixeira de Freitas. Mais que uma fazenda, ela foi caminho, porto, escola, ponto de fé, mercado e, para muitos, um lar. 

Mais que uma simples fazenda, a Cascata foi o verdadeiro útero da cidade: estrada e porto, escola e igreja, comércio e lar. Foi, em essência, o lugar onde Teixeira de Freitas começou a respirar – e que continua vivo no DNA da cidade que ajudou a criar.


Fontes:

ENTREVISTA com Zé Sergio. Realizada em maio de 2013.

IBGE. Teixeira de Freitas – histórico. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=293135. Acesso em: 05 ago. 2013.

SAID, Fábio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958).

SATANA, Susana Leal. No vale do Mucuri: de 1950 a 1980 – de Teófilo Otoni a Alcobaça: vivendo a mata, o fogo, o pasto. Belo Horizonte: Edição da autora, 2019.

Teixeira de Freitas histórico. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=293135 > Acesso em: 05 de agosto 2013.

Entrevista com Zé Sergio, Maio de 2013.

SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958)

Foto: Bairro Nova América, entre 1960 e 1970.


Daniel Rocha da Silva


Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.


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