O tempo do pão
Por Daniel Rocha
Por acaso, e por hábito de quem gosta de observar os detalhes da vida, fui espiar no YouTube a reação dos narradores colombianos durante a final da Copa América Feminina de 2025. O jogo, realizado no Equador, em Quito, tinha todos os elementos de um drama clássico: torcida vibrante, história em jogo e uma tensão que parecia ferver em fogo lento.
A Colômbia vinha firme, confiante, dona da bola e da esperança. Pela primeira vez, o país via sua seleção feminina como favorita absoluta. E, por longos minutos, parecia mesmo que o roteiro lhes pertencia. Mas a vida,como o futebol, raramente respeita roteiros prontos.
Nos instantes finais do segundo tempo, Marta apareceu. Ela, que muitos já tratavam como memória, fez um gol daqueles que mudam o rumo não só de partidas, mas de silêncios. Um chute, uma curva, um instante. Tudo mudou. Veio a prorrogação. Vieram os pênaltis. E veio o Brasil, de novo, campeão.
Do outro lado da história, os narradores colombianos tentavam juntar os cacos de uma vitória que quase foi. Um deles, com a voz embargada, deixou escapar a frase que grudou na minha cabeça: “Não soubemos tirar o pão do forno na hora certa. E ele queimou.”
Ali, naquele comentário espontâneo, havia mais do que frustração esportiva. Havia sabedoria. Porque a vida também é um forno aceso. E cada decisão que tomamos — ou adiamos, é um pão esperando o ponto certo.
Tirar antes do tempo? Cru. Tirar depois? Queimado. O bom mesmo é saber o exato momento em que o cheiro muda, a casca dourada e o coração da massa está pronto pra ser servido. Mas quem disse que é fácil?
Vivemos correndo. Fazendo escolhas apressadas ou adiando o inevitável. Temos pressa de resolver, medo de perder, ansiedade de acertar — e, no meio disso tudo, esquecemos de prestar atenção no fogo. Não qualquer fogo: o fogo do tempo.
A fala do narrador colombiano ecoa também nos nossos relacionamentos que passaram do ponto, nas palavras que dizemos quando já é tarde demais, nas chances que queimamos por não termos a coragem de abrir o forno e ver.
Marta, naquele chute preciso, foi como o padeiro experiente: esperou o instante exato. Nem antes, nem depois. E fez história. E que o tempo, esse senhor que não grita, mas sussurra, sempre avisa. Só precisamos estar ali, ao lado do forno, de alma acesa.
Porque no fim das contas, a gente não quer só vencer. A gente quer servir um pão que alimenta. Que tenha cheiro de cuidado, gosto de presença e textura de acerto. E quando errarmos , porque às vezes erramos, que ao menos sejamos capazes de rir de nós mesmos, como um bom padeiro que sabe: o próximo forno está logo ali.


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