As versões de nós mesmos
Por Daniel Rocha
No fim do ano, mesmo quando juramos não entrar no clima, a vida dá um jeito de nos parar. Nem que seja por um inst
ante. É quando fazemos aquele balanço silencioso: o que fomos, onde estamos, o que ainda acreditamos ser possível. Pensamos nas incertezas que nos paralisaram e nas que, curiosamente, nos empurraram para frente.
E, quase sem perceber, lembramos das versões de nós mesmos que ficaram pelo caminho. Algumas mais corajosas, outras ingênuas. Há as que acertaram em cheio e as que confiaram demais em promessas que não se cumpriram. Cada escolha deixou marcas: conquistas que colhemos com orgulho e garantias que imaginávamos sólidas, mas que o tempo tratou de desfazer.
Viver é isso: ano após ano, vamos assentando tijolos — ou derrubando paredes. Nem sempre escolhemos o ritmo da obra. Às vezes, resta apenas seguir a correnteza dos dias que passam, enquanto a angústia insiste em acompanhar. Ainda assim, algo permanece essencial: a vida continua, e ela segue de acordo com a versão que decidimos viver agora.
Essa versão também vai errar, acertar, sorrir e sofrer. Vai acumular alegrias e tristezas, como todas as outras que ainda moram em nós, apesar do tempo. A diferença é que ela está em construção. E é nela que apostamos quando um ano termina e outro começa.
Porque mudar não é negar quem fomos. É entender que cada versão cumpriu seu papel — e que sempre existe espaço para escrever um novo capítulo, com mais consciência, mais coragem e, quem sabe, um pouco mais de leveza.

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