Teixeira de Freitas – O Natal da Emancipação
Por Daniel Rocha
No fim de 1985, Teixeira de Freitas,Ba, vivia um momento especial. A cidade, recém-emancipada, se preparava para o primeiro Natal como município independente.Pouco antes, no dia 15 de novembro, a população tinha ido às urnas para escolher o primeiro prefeito e os primeiros vereadores.
Era o começo oficial de uma nova fase, cheia de expectativas e sonhos de progresso para toda a região do Extremo Sul da Bahia.
Esse clima de esperança apareceu nas páginas do jornal Extremo Sul Agora, que no dia 15 de dezembro daquele ano acompanhou a posse dos eleitos. As falas eram de união e otimismo, bem no espírito de fim de ano.
O vice-prefeito Getúlio Isaías desejou um Natal e um Ano Novo de realizações e lembrou que ninguém governa sozinho, chamando a comunidade para ajudar a construir a nova cidade.
Os vereadores eleitos também falaram nesse tom. Wilson Guimarães Soares agradeceu os votos e disse que iria trabalhar para retribuir a confiança do povo.
Para ele, Teixeira de Freitas não era só uma cidade que estava nascendo, mas um polo importante, capaz de puxar o desenvolvimento de todo o Extremo Sul.
Já o vereador José Lomanto Cardoso foi ainda mais enfático, dizendo que Teixeira estava nascendo para a Bahia e para o Brasil, e pediu que as brigas partidárias ficassem de lado em nome da união.
Naquele primeiro Natal, pelo menos no que aparecia no jornal, o sentimento era de que tudo estava começando do zero e que o futuro seria melhor.
A emancipação parecia a chave para resolver problemas antigos e abrir novas oportunidades para uma cidade carente de investimentos no social, construção de escolas e infraestrutura, por exemplo.
Mas, poucos anos depois, a realidade mostrou que o caminho não seria tão simples e o natal não tão maravilhoso para todos.
Em um vídeo gravado em 26 de dezembro de 1988, já no fim do primeiro mandato do prefeito Temóteo Alves de Brito, aparecem servidores municipais protestando por salários atrasados. Entre eles, professores e trabalhadores diversos.
Em entrevista, uma servidora grevista resumiu bem aquele momento ao dizer que viveu com a família um Natal de privações e com dificuldades : “Um natal limpo, sem dinheiro, sem salário e sem o direito de dar um carrinho de plástico para um filho”, frisou.
Destacou também que os servidores haviam confiado no prefeito, mas que o mesmo ignorava suas condições. A frase escancara a frustração de quem acreditou nas promessas feitas no palanque durante o processo eleitoral para escolha do primeiro prefeito após a emancipação da cidade.
As fontes consultadas apontam para um período de pouca maturação administrativa, com tempo insuficiente para a organização da máquina pública, além de denúncias envolvendo falhas de gestão, uso indevido dos recursos públicos da educação e práticas de clientelismo político voltadas a interesses eleitorais.
Por fim, olhando de trás para frente, entre natais de aperto e natais de esperança, a cidade foi se fortalecendo e amadurecendo, aprendendo que o verdadeiro desenvolvimento se constrói com trabalho coletivo, aprendizado, consciência política e compromisso com o futuro.
Porque, apesar de tudo, o povo teixeirense nunca deixou de acreditar que dias melhores — mais dignos e socialmente mais justos para todos e todas — não apenas podem, como devem chegar.
Fontes consultadas:
MENSITIERI, Carlos. A recente história de Teixeira de Freitas: um depoimento! São Paulo: Perse, 2019.
Jornal Extremo Sul Agora! Mucuri, dezembro de 1985.
Vídeo: Protesto dos funcionários na época de Timóteo Brito. Acessado em 2015. Youtube. Acervo site tirabanha.




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