Caravelas 1888 – Temporal, Naufrágios e Resgates

 




Por Daniel Rocha

Um relato publicado na seção Gazetinha do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 23 de setembro de 1888, reconstrói a sequência de episódios dramáticos que marcaram o litoral sul da Bahia.

Entre temporais, atrasos de navegação, naufrágios e operações de resgate, a região de Caravelas e do Farol dos Abrolhos aparece como um eixo vital de circulação — a verdadeira BR-101 marítima da época, por onde tudo e todos passavam.

Segundo o jornal, um patacho, embarcação antiga de dois mastros, tendo a vela de proa redonda, pertencente à armada, provavelmente imperial, enfrentou forte mau tempo durante sua rota próxima ao extremo sul baiano.

Após permanecer parado, no dia 20 do mês anterior, agosto, a embarcação seguiu viagem rumo aos Abrolhos e a Caravelas, mas um temporal no início da noite a surpreendeu.

A tormenta, que se estendeu por mais de seis horas, obrigou o navio a manobras arriscadas para evitar danos graves. Somente na noite de 27 de agosto o farol dos Abrolhos foi finalmente avistado e, já na madrugada, depois de grande esforço da tripulação, o vapor pôde sinalizar sua chegada.

Imagem Ilustativa

Mesmo assim, ficou fundeado por sete dias nas ilhas, impedido de seguir viagem pelos ventos fortes de sudoeste, até partir novamente e, por fim, “saudar a cidade de Caravelas”.
O jornal registra ainda outro episódio marcante ligado às mesmas tempestades: no dia 3 de setembro, por volta das quatro da tarde, o barco 10 de Março chegou ao porto de Caravelas após oito dias desaparecido.

Seus tripulantes sobreviveram ao naufrágio da embarcação, que afundou em meio ao mar revolto. A salvação veio quando avistaram a “lancha Justa”, do porto de Caravelas, responsável pelo resgate.

O periódico mencionou também uma canoa de pesca virada com três tripulantes, todos salvos pela guarnição do Caravellas, assim como a própria canoa. Os náufragos relataram que pescavam havia mais de quatro horas e lutavam na água contra a tormenta na esperança de algum socorro.

No dia 4, às duas da tarde, outra embarcação fundeou na barra de Caravelas, “sem a menor novidade”. Um outro relato feito, destacou também a ocorrência de uma trágica morte ocorrida no contexto das tormentas.

Durante a viagem da Villa do Prado para a capital, faleceu no Patacho, João Antonio de Souza, que exerceu diversos cargos eletivos e de nomeação governamental. Como o barco não conseguia chegar a nenhum porto próximo, o corpo teve de ser lançado ao mar agitado e frio.

Reunidas, essas notas mostram como Caravelas e o arquipélago dos Abrolhos, rota estratégica e arriscada, se mantinham no centro das rotas de navegações, acidentes marítimos, operações difíceis e resgates dramáticos.

Um cenário que chamou a atenção da imprensa nacional no fim do século XIX e expôs o quanto o mar determinava ritmos, perigos e destinos no extremo sul da Bahia.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Fonte: Jornal O comercio. Provinica da Bahia. 23 de setembro de 1888.

Imagem. Francisco Cabral. 1907. Meramente Ilustrativa. Google Imagens.

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