Esse conflito acompanha a gente o tempo todo. A gente faz planos, cria uma ideia bonita de quem quer ser, mas a vida vem e bagunça tudo.
A angústia aparece quando a gente entende que as escolhas são nossas — inclusive aquelas que vão contra nossas próprias convicções. Aí a capitis diminutio deixa de ser teoria e vira coisa do dia a dia.
Isso fica bem claro quando a gente olha para nossos avós na fase mais madura da vida. Eles falam o que pensam, sem rodeio, não têm muita paciência para convenção social e ignoram regras que já não fazem sentido.
Não é teimosia, nem rebeldia gratuita. É que o tempo vai tirando o peso da opinião dos outros. A vontade de agradar diminui, os papéis sociais perdem importância e sobra algo mais direto, mais verdadeiro.
Mas isso não começa só na velhice, não. Começa bem antes. Ao longo da vida, todo mundo passa por pequenas capitis diminutiones: certezas que caem, valores que mudam, ideias que já não se sustentam como antes.
Nos relacionamentos, principalmente no amor, isso aparece com ainda mais força. O sentimento continua ali, mas o jeito de amar muda. As regrinhas invisíveis perdem força, o romantismo idealizado dá lugar a um amor mais real, cheio de falhas e limites. Ainda é amor — só que diferente, menos idealizado e mais pé no chão.
Com o tempo, a gente entende que não existe uma essência fixa para proteger. A gente muda o tempo todo. Está sempre se refazendo. Por isso, precisa repensar o jeito de falar, de agir e até de ficar em silêncio. Não para caber de novo em normas antigas, mas para assumir, com mais consciência, a responsabilidade pelo que faz e pelo que sente.
Olhar a vida assim ajuda a aceitar que perder algumas ilusões não empobrece ninguém. Pelo contrário, aprofunda. Quando a gente larga falsas seguranças, fica frente a frente com a própria liberdade — e com a tarefa inevitável de dar sentido à vida, mesmo sabendo que esse sentido nunca vai ser definitivo.
Comentários