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Teixeira de Freitas – Quando tudo era fazenda
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Por Daniel Rocha
Em 2017, em parceria com o memorialista Domingos Cajueiro Correia, realizamos um levantamento inédito sobre as comunidades rurais que ocupavam o atual território de Teixeira de Freitas antes mesmo da formação do primeiro povoado.
Um estudo que recupera origens, identifica propriedades, mapeia atividades econômicas e revela os protagonistas que impulsionaram a organização social e produtiva de uma região então administrada pelos municípios de Alcobaça e Caravelas.
Os resultados mostram uma realidade dinâmica: até os anos 1960, Alcobaça e Caravelas eram centros comerciais decisivos, movimentados pelas fazendas distribuídas ao longo do vale do rio Itanhém. Café, cacau, mandioca, gado e uma ampla variedade agrícola abasteciam os portos litorâneos, deixando um rastro de prosperidade e ocupação territorial. Nesse panorama surgem propriedades que marcaram história e se tornaram referências na memória regional.
Fazenda Angelim
Conhecida pela força do nome de sua proprietária, Dona Angelita, destacou-se pelo cultivo de café e mandioca às margens do rio Alcobaça/Itanhém. Seus terreiros e estufas atendiam à fazenda e aos agricultores vizinhos. O topônimo remete à árvore nativa Angelim, símbolo da região.
Fazendas Futurista e Itabaiana
Sob a direção de Manoel Euclides de Medeiros, avançavam pela margem norte do rio Itanhém. Com cacau, mandioca e criação de gado, tornaram-se referências pela extensão territorial e pela diversidade produtiva.
Fazenda Guerreiro
Fundada pelo Capitão Jonguinha, voltava-se para o cultivo de cana, café e mandioca, além da pecuária. O transporte, inicialmente limitado a canoas e animais, tinha como destino o porto de Alcobaça. Com João Barro, ganhou novo impulso ao se tornar produtora reconhecida de cachaça, famosa pelos barris de madeira de seu alambique.
Fazenda Janina
De Ricardo Muniz, integrou o circuito cafeeiro do início do século XX e, a partir de 1920, o cultivo de cacau. A secagem das amêndoas seguia o método tradicional em barcaças e no chão batido, mantendo viva a prática artesanal da época.
Fazenda Serraria
De propriedade do pai de Quinca Neto, pioneiro no cacau local, destacou-se por introduzir estufas e, depois, barcaças na secagem do cacau e do café. Seu nome lembra o período em que a área era dedicada à extração manual de madeira.
Fazenda Cascata
Comprada em 1891 por Joaquim Muniz de Almeida, converteu-se em uma das grandes produtoras de café e cacau, exportando para Salvador pelos navios da Empresa Baiana de Navegação. Com produção diversificada e um açougue que atendia a redondeza, firmou-se como referência econômica e comunitária.
Fazenda Imbiribeira
De Manoel Félix Correia, próxima ao rio Itanhém, ganhou notoriedade entre o fim do século XIX e o início do XX com a produção de café e farinha de mandioca. O nome deriva da árvore imbiriba, utilizada ancestralmente para fibras e utensílios.
Fazenda Estiva
Administrada por Idelfonso, mantinha a tradição do café e da mandioca às margens do rio Itanhém. A secagem em terreiros e gavetas exemplificava o padrão produtivo regional.
Fazenda Nova América
Adquirida em 1922 por José Félix de Freitas Correia, marcou décadas como grande produtora de café. Seu porto ativo, sua capela de 1930 e sua venda — administrada por Antímio de Freitas Correia — transformaram a fazenda em polo comercial. Produtos como café, farinha, feijão e cacau abasteciam a região até meados dos anos 1950. Nos anos 1960, com estradas e a formação do povoado que originaria Teixeira de Freitas, a Nova América diversificou-se e tornou-se base para bairros hoje consolidados, como Nova América, São José, Caminho do Mar, Mirante do Rio e Monte Castelo. A antiga sede permanece preservada às margens da BR-101.
Japira
Lembrada como aldeia às margens do rio Itanhém, pertencia a “Vovô Guilherme”, descendente de escravizados. A comunidade afrodescendente preservava tradições, modos de falar e vínculos de subsistência. Documentos de 1958 indicam que sua localização corresponde hoje ao bairro Colina Verde.
Fazenda Araras
Produtora de café e farinha desde o século XIX, deu origem a uma comunidade que persiste até hoje. Seu nome deriva da antiga abundância de araras azuis e vermelhas no território.
Fazenda São Gonçalo
Fundada pela família Neves ainda no século XIX, é lembrada pelo cemitério utilizado durante mais de cem anos por moradores que percorriam trilhas iluminadas por tochas de biriba. A prática cessou apenas na década de 1950, com a abertura de um cemitério no antigo povoado.
Por fim, o levantamento revelou que, muito antes do surgimento da cidade, já pulsava no território um conjunto robusto de atividades econômicas, redes de circulação, práticas culturais e trajetórias humanas. Havia comércio ativo, produção diversificada e comunidades organizadas, demonstrando que Teixeira de Freitas não nasceu do vazio: nasceu de histórias, de esforços cotidianos e de uma construção coletiva que antecede a urbanização e sustenta as bases da identidade local.
Fontes Consultadas
SAID, Fábio M. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo, 2010. Edição do Autor.
Acervos e Imagens
Fotografias: Mulheres da zona rural de Teixeira de Freitas, ano não identificado.
Fazenda Cascata. Ano desconhecido.
Mapa: Município de Alcobaça, 1958. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Praça do Leões início da década de 1990 Por Daniel Rocha Segundo Godoaldo Amaral, em conversa informal com Domingos Cajueiro Correia, a urbanização da Praça dos Leões, que fica na parte central da cidade, foi realizada na administração do prefeito Gerson de Oliveira Costa, vulgo “Caboclinho”, entre os anos de 1972 e 1982. Já para o senhor Almir Santos, morador da cidade desde 1960, a Praça dos Leões foi construída em 1974; feita para recepcionar o governador Antônio Carlos Magalhães que em 1971, havia visitado a capela de São Pedro e prometido voltar novamente. Na segunda visita do governador em 1974, ele discursou sobre o projetos para a região e aproveitou a oportunidade para prometer “a luz de Paulo Afonso” ,que chegaria a cidade meses depois. Recorda e conta o senhor Almir Santos que houve até um acidente antes da chegada do governador ao local; pessoas subiram em uma marquise de uma loja próxima para ouvir o discurso e a mesma não suportou o ...
Por Daniel Rocha A Praça da Bíblia, antes denominada Independência, foi inaugurada em abril de 1995. Na década de 1980, abrigou comícios, gincanas e eventos populares e desde sempre foi um espaço de convivência e recreação para os moradores e visitantes. O local também foi lugar de comércio, devido à proximidade com o terminal rodoviário, hoje conhecida como rodoviária Velha onde diversos camelôs vendiam suas mercadorias. O serviço de frete era prestado por caminhões e carros pequenos, por isso era uma presença constante na paisagem. Durante meados da década de 1980 e início da década de 1990, a praça foi palco das gincanas realizadas junto com a festa de aniversário da cidade, onde diversas tarefas eram realizadas ao ar livre durante o dia e a noite. Segundo Tomires Monteiro, em entrevista a TV Sul...
Por Daniel Rocha É impossível determinar exatamente o marco zero da cidade de Teixeira de Freitas, onde de fato tudo começou, isso porque mesmo tendo a população rural se fixado primeiramente às margens do rio Itanhém em meados do século 18, foi nos arredores da Praça dos Leões que a cidade desabrochou através da movimentação dos moradores das localidades próximas. Sabemos através destes antigos moradores que anterior à década da urbanização do espaço, em 1950, no local da praça já existia movimentação de pessoas no local. Por exemplo, recorda Isidrio Alves, nascido e criado em comunidades rurais próximas, que em 1934 presenciou a passagem de descendentes de negros escravizados vindos de um lugar por nome Japira ,que ficava às margens do rio Itanhém, pelo lugar. Lembra que os negros vinham passar semanas na mata caçando animais e por esse motivo ficavam alojados onde hoje é o centro da cidade, no exato local da praça, em um rancho de palha constru...
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