CARAVELAS 1877 — UMA BALEIA FORA DO CONTROLE
Por Daniel Rocha
Em 1877, uma notícia publicada na imprensa soteropolitana atravessou o litoral baiano causando espanto e comoção. O jornal noticiava a morte do baleeiro Joaquim José de Araújo, natural de Caravelas (BA), tragado pela força do mar durante o que deveria ser apenas mais um dia rotineiro de caça à baleia em alto-mar.
Naquele período, a pesca baleeira não era aventura nem exceção: era sustento. Herdada do período colonial, a atividade movia a economia local e garantia a sobrevivência de muitas famílias.
O procedimento era conhecido e repetido inúmeras vezes: a baleia era avistada, o arpão lançado, as linhas reforçadas e o animal conduzido até Abrolhos ou ao porto de Caravelas. Tudo girava em torno do produto mais valioso da época: o óleo de baleia.
Esse óleo iluminava ruas e residências, alimentava engenhos, movimentava estaleiros, vedava embarcações e até integrava a argamassa das construções. A carne, rejeitada pelas elites, era consumida pela população mais pobre. Nada se desperdiçava. Cada parte do animal se transformava em mercadoria.
Segundo o relato do periódico da capital, a tragédia ocorreu quando a baleia, uma jubarte, já parecia dominada após ser atingida por um arpão. No entanto, a aproximação inesperada de outro animal fora de controle ,e da mesma espécie, alterou completamente o cenário. Reanimada, a baleia que estava dominada realizou um arranque súbito e violento em direção ao mar aberto.
As cordas, esticadas sob enorme tensão, se enroscaram — e Joaquim José de Araújo foi arrastado. Sem tempo para reagir, acabou lançado às profundezas diante dos companheiros que no barco tentavam puxá-lo para fora da água.
A descrição do episódio feita pelo jornal destaca a precariedade das condições de trabalho e o alto grau de risco a que estavam submetidos os baleeiros. As embarcações eram frágeis, as técnicas dependiam de força física e coordenação, e a margem para o erro era mínima.
Ainda conforme, o corpo do pescador de baleias nunca foi encontrado. O episódio ganhou contornos ainda mais dramáticos quando se revelou um detalhe perturbador: dezoito anos antes, o pai de Joaquim havia morrido da mesma forma durante a captura de uma baleia de mesmo porte.
Dessa forma, pai e filho, unidos pelo ofício, tiveram destinos selados pelo mesmo mar do extremo sul baiano.
Por fim, mais do que um registro de tragédia, a nota jornalística expõe algo do cotidiano da cidade de Caravelas do século XIX: um lugar moldado pelo oceano, dependente de uma atividade tão lucrativa quanto mortal. Um relato duro e profundo dos tempos mais antigos da história local.
No próximo texto, vamos relembrar com detalhes o show de Luiz Gonzaga em outra importante cidade do Extremo Sul Baiano, no mesmo ano e mês da apresentação realizada em Teixeira de Freitas, e seguir esse roteiro musical que marcou época na região.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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