Itamaraju 1991 – Abandono e Tragédia

 


Por Daniel Rocha

Um grave acidente ocorrido no dia 9 de fevereiro de 1991, no quilômetro 801 da BR-101, perto da entrada de Itamaraju, no extremo sul da Bahia, deixou uma marca profunda na história rodoviária da cidade. 

Dez pessoas morreram e outras onze ficaram feridas após a colisão entre um caminhão carregado de madeira e um ônibus da Viação Itamaraju. Mais do que um acidente, o episódio revela como o abandono das estradas e a pobreza caminharam juntos  no período.

Naquele início dos anos 1990, a BR-101 estava em péssimas condições. Buracos, falta de manutenção e sinalização precária faziam parte do dia a dia de quem passava pela rodovia federal. 

Acidentes eram frequentes e, para muitos motoristas, o risco já era quase esperado. O que tornava a situação ainda mais grave era a ausência do poder público para resolver o problema.

Diante desse cenário, moradores da região passaram a enxergar nos buracos da estrada uma forma de sobreviver. Homens e mulheres tapavam os buracos com barro e cascalho e, em troca, recebiam algumas moedas ou pequenas quantias dos viajantes. 

Era um trabalho perigoso, feito à beira da rodovia, em meio a carros, ônibus e caminhões em alta velocidade. Mas, para quem tinha poucas opções, aquele risco virou fonte de renda.

Segundo a delegada Ana Maria Cesar de Jesus, que investigou o caso, no momento do acidente havia pessoas fazendo esse “tapa-buraco” improvisado no local. Isso acabou estreitando a pista. 

Ao relatar o ocorrido, o motorista da carreta contou que foi surpreendido por uma freada brusca do ônibus à sua frente. Ao tentar evitar a batida, ele não teve tempo suficiente para parar. Desviar para a contramão, segundo o relato, poderia significar atropelar dezenas de pessoas que estavam trabalhando na estrada, idosos, mulheres, adolescentes e crianças.

Com o impacto, o caminhão e o ônibus capotaram e caíram em uma ribanceira de quase dez metros. A tragédia expôs uma realidade dura e comum nos municípios cortados pela BR -101 no extremo sul da Bahia da época: uma estrada abandonada, trabalhadores informais arriscando a própria vida e passageiros pagando o preço dessa combinação.

Mesmo reconhecendo as más condições da BR-101, a polícia informou que o motorista ainda poderia ser responsabilizado, dependendo da avaliação técnica do veículo. 

Imagem Ilustrativa gerada por IA

Uma fala da delegada sobre o ocorrido deixou claro o dilema: a lei precisava ser aplicada, mesmo diante de uma situação marcada pelo descaso e pela precariedade.

Dessa forma, o acidente de Itamaraju, visto de hoje, ajuda a entender um período em que a falta de investimento público empurrou pessoas para soluções improvisadas e perigosas e que os buracos da BR-101 iam muito além de falhas no asfalto.

Eram sinais de uma realidade social dura, em que sobreviver muitas vezes significava arriscar a própria vida, num cenário regional marcado pela ausência quase total de assistência e de direitos sociais garantidos pelo Estado Brasileiro, deixando a população carente entregue à própria sorte.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Fonte: Noticias Correios. Fev.1991.

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