Os estoicos e as canetas emagrecedoras
Por Daniel Rocha
Vivemos na era do olhar. Tudo é visto, tudo é avaliado, tudo é comparado. Seu corpo é perfil. Sua imagem é cartão de visita. Sua aparência é discurso. E, no meio dessa vitrine permanente, surge o novo objeto de desejo coletivo: a “canetinha emagrecedora", um produto milagroso de validação para alguns.
Que não promete apenas emagrecimento. Promete aplauso. Promete elogio. Promete pertencimento. Vende a ideia de um corpo magro, elogiável, aceito — quase certificado socialmente. Não é só sobre perder peso. É sobre ganhar validação. É o sonho embalado em dose controlada.
Como todo produto que desperta o fetichismo da sociedade, ela chega cercada de aura quase milagrosa. Antes e depois. Sorrisos renovados. Autoestima restaurada. Felicidade em cápsulas. O corpo vira campanha publicitária de si mesmo. Auto Marketing em estado puro. Você não apenas vive — você se posiciona. Você não apenas existe — você se apresenta.
Mas por trás da promessa existe uma engrenagem: padrões. Padrões que dizem como devemos parecer. Padrões que ignoram diversidade, história, biologia. Padrões que transformam estética em obrigação. A discussão deixa de ser saúde e vira aceitação. Deixa de ser bem-estar e vira enquadramento.
E onde há pressão estética, há mercado. Se existe insegurança, existe produto. Se existe comparação, existe solução à venda. O sonho tem preço. A aprovação tem embalagem. A perfeição tem boleto.
O olhar rege a sociedade. E, numa cultura que valoriza tanto a opinião alheia, a estética vira passaporte social. Vivemos sob a lógica do “ser visto para ser validado”. A pergunta já não é “estou bem?”, mas “estou dentro do padrão?”.
Diante dessa onda, os estóicos fariam silêncio — e depois fariam perguntas. Epicteto lembraria: o que os outros pensam não está sob seu controle. Sêneca alertaria: quem vive refém da aprovação vive sem liberdade. Marco Aurélio diria: se não fere seu caráter, não fere sua essência.
Cuidar do corpo é legítimo. Transformá-lo em mercadoria emocional é outra história. A verdadeira revolução talvez não esteja na próxima promessa estética, mas na coragem de não se deixar governar pelo olhar alheio. Porque, no fim, a maior liberdade não é caber no padrão. É não precisar dele.

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