TEIXEIRA DE FREITAS 41 ANOS - O FIM DA PIONEIRA CRUZ
Por Daniel Rocha
Pouca gente percebeu, mas um dos primeiros símbolos do cristianismo em Teixeira de Freitas simplesmente desapareceu da paisagem da cidade. A velha cruz de madeira, erguida lá nos anos 1950 na praça dos Leões era considerada o primeiro marco cristão do município, foi se deteriorando com o tempo até ser retirada do terreno onde ficava, bem às margens da Avenida Presidente Getúlio Vargas, uma das mais movimentadas da cidade.
Como informamos em um texto sobre a igreja subterrânea em 2018, a cruz estava no terreno da antiga igreja, um espaço que durante muitos anos resistiu à pressão da especulação imobiliária no centro urbano.
Até o final da década de 1990, quem passava por ali ainda conseguia vê-la na esquina do terreno, voltada para Getúlio Vargas resistindo ao tempo, a indiferença e mudanças do foco da fé.
No pedestal de concreto, muro que sustentava o antigo cruzeiro, um texto contava sobre sua importância e lugar na história: “Sob este signo vencerás. Essa cruz marca a história de Teixeira de Freitas, tendo sido colocada em frente à capela antiga em 1954, na Igreja São Pedro em 1979, e fixada neste templo cristão em 1984”.
Tal inscrição não apenas conferia sentido histórico ao objeto, mas também funcionava como dispositivo narrativo, orientando a leitura pública de seu significado. Com o passar do tempo, porém, essa informação foi desaparecendo.
Camadas de tinta, reformas improvisadas, pichações e mudanças no muro acabaram apagando o aviso que explicava a importância histórica da cruz, fragilizando o vínculo entre o objeto e sua historicidade.
Enquanto isso, a cruz foi ficando cada vez mais “invisível” no meio da cidade. Frei Elias, franciscano responsável pela construção da igreja subterrânea e pela colocação da cruz naquele ponto, já alertava para isso.
Em um livro publicado em 2011, ele contou que o antigo cruzeiro dos anos 1950 até chegou a ser preservado por um tempo, mas acabou desvalorizado, ‘tentando resistir no meio de enormes outdoors e placas de propaganda’.
No início da década de 2020, esse processo atingiu seu desfecho. A igreja, a casa paroquial e o terreno onde se encontrava a cruz foram negociados e vendidos, convertendo o antigo espaço religioso em um ponto comercial. Com isso, o símbolo foi definitivamente retirado.
Trata-se de um caso exemplar do que o históriador Pierre Nora define como a crise dos lugares de memória: espaços que sobrevivem materialmente, mas cuja capacidade de evocar e transmitir o passado é profundamente afetada pelas transformações sociais e urbanas.
Assim, a permanência da estrutura da antiga igreja — hoje reduzida à função de depósito — adquire um caráter paradoxal: embora materialmente presente, encontra-se destituída de sua função simbólica original.
Assim, a ausência da cruz na Avenida Presidente Getúlio Vargas não é apenas a perda de um objeto religioso, mas a revelação de uma lacuna na memória urbana: um vazio que denuncia a precariedade da preservação histórica em contextos de modernização acelerada de Teixeira de Freitas.
Fonte:
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7–28, dez. 1993.


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