Itamaraju 1990 – O delegado e o tráfico de crianças



Por Daniel Rocha

Em novembro de 1990, uma investigação policial trouxe à tona denúncias que causaram grande repercussão no extremo sul da Bahia.

Em Itamaraju, surgiam suspeitas de que recém-nascidos estariam sendo encaminhados para adoção internacional em circunstâncias que levantavam dúvidas sobre a legalidade dos procedimentos e alimentavam acusações de tráfico de crianças.

À frente do caso estava o delegado Antônio José Batista. Em declarações à imprensa da época, ele afirmou que já investigava denúncias relacionadas ao desaparecimento e à circulação irregular de menores na região havia meses.

Segundo o delegado, apenas naquele momento a polícia teria reunido elementos suficientes para aprofundar as apurações.

As diligências foram realizadas com o acompanhamento do juiz de menores da comarca. Durante a operação, os investigadores visitaram residências onde mulheres mantinham bebês sob seus cuidados.

A suspeita era de que algumas delas estariam recebendo dinheiro para abrigar temporariamente as crianças até a conclusão de processos de adoção.

Entre os valores mencionados nos depoimentos apareciam pagamentos realizados em dólares, fato que reforçou as suspeitas de uma possível conexão internacional.

Imagem com elementos de IA.

As reportagens publicadas naquele período informaram que três recém-nascidos foram encontrados em diferentes residências.

Uma das mulheres ouvidas pelos investigadores declarou ter recebido a criança poucos dias após o parto, sendo orientada a mantê-la afastada da atenção pública até que a documentação fosse concluída. Outra afirmou ter recebido a oferta de 600 dólares para cuidar provisoriamente de um bebê.

No centro das acusações apareceu o nome de uma advogada da cidade, apontada pela investigação como responsável por intermediar a entrega das crianças.

Segundo os jornais, os processos eram encaminhados ao fórum de Teixeira de Freitas, onde passavam pela apreciação da magistrada responsável pela comarca.

A juíza, entretanto, contestou a interpretação dada pela investigação. Em entrevistas concedidas à imprensa, afirmou que os procedimentos adotados estavam de acordo com a legislação vigente e destacou que a mesma advogada já havia participado anteriormente de outros processos de adoção realizados por meio dos canais judiciais formais.

Assim, o caso acabou revelando mais do que uma simples investigação policial. Ele expôs as tensões existentes entre diferentes instituições do Estado em um período de profundas mudanças na legislação brasileira voltada à proteção da infância.

É importante destacar que pouco tempo antes, o país havia promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, criando novos mecanismos de controle e fiscalização sobre os processos de adoção.

Dessa forma, entre suspeitas, versões conflitantes e questionamentos sobre os limites da legalidade, a investigação de Itamaraju tornou-se um dos episódios mais controversos da história recente da região — uma história que ainda reserva novos capítulos.

(Continua no próxima postagem sobre o assunto)

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook

O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes, ou convertido em áudio ou vídeo sem autorizaçã

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

História de Teixeira de Freitas - Praça dos leões: Parte final

A história de Teixeira de Freitas - A Praça da Bíblia

História de Teixeira de Freitas. Praça dos Leões o marco zero da cidade: parte 01