TEIXEIRA DE FREITAS 1967 – A MEMÓRIA VIVA DO BAILE
Por Daniel Rocha
Em 2020, o Tirabanha registrou o depoimento de um importante personagem da memória de Teixeira de Freitas: Jair de Freitas Correia, integrante da tradicional dupla Primo e Sobrinho. Presente no baile beneficente realizado em 1967, Jair ajudou a reconstituir um dos episódios mais marcantes da história do antigo povoado, quando uma festa organizada para arrecadar recursos destinados à construção da Igreja São Pedro terminou em uma violenta confusão.
O caso havia sido noticiado, à época, pelo jornal Folha de Nanuque, que relatou o esfaqueamento de dois soldados do destacamento policial de Caravelas durante o evento. O relato de Jair, no entanto, acrescenta detalhes que a reportagem não registrou, revelando aspectos do cotidiano e das transformações vividas por Teixeira de Freitas naquele período.
Segundo ele, o baile aconteceu em um salão de pensão localizado na antiga Praça dos Leões, onde atualmente funciona uma farmácia. Na década de 1960, o povoado era repleto de pensões que recebiam viajantes e trabalhadores. À noite, os geradores de energia movimentavam o cinema, os bailes e a vida social da comunidade.
A festa reunia famílias, casais e jovens que buscavam diversão em um ambiente considerado respeitoso. O objetivo era arrecadar recursos para a construção da nova igreja da comunidade, que mais tarde seria dedicada a São Pedro.

"Alguns, não todos, assediavam as mulheres e gostavam de ter fama de 'pegadores'. Queriam demonstrar valentia, andavam armados e provocavam brigas por onde passavam, como se fossem donos do povoado", recorda Jair.
Para o morador, o episódio do baile não pode ser compreendido isoladamente. Havia um ambiente de tensão provocado pelas rápidas mudanças sociais vividas por Teixeira de Freitas. Um dos motivos de insatisfação entre antigos moradores era a alteração do nome da capela local, tradicionalmente dedicada a São Sebastião.
Conforme lembra Jair, a mudança para São Pedro ocorreu por influência de migrantes que mantinham proximidade com o padre e participavam da campanha de construção da nova igreja.
Frei Elias Hooij registra fato semelhante ao afirmar que a comunidade passou a ter São Pedro como padroeiro "democraticamente, mas com alguma pressão do vigário". A nova igreja seria inaugurada em 9 de fevereiro de 1969, durante as comemorações da tradicional Festa de São Sebastião.
Outro ponto lembrado por Jair diz respeito ao apelido atribuído ao antigo povoado. Segundo ele, os moradores jamais chamaram Teixeira de Freitas de "Arrepiado".
"Na verdade era 'Rupiaria'. Esse negócio de 'Arrepiado' foi invenção de quem veio de fora. Assim como o nome Teixeira de Freitas, esse apelido não nasceu entre os moradores", afirma.

Na sua memória, foi justamente o comportamento de Sivaldo durante o baile que desencadeou o conflito. Após provocar o dono da pensão e insistir em permanecer na festa, iniciou-se uma briga que rapidamente fugiu do controle.
Mais do que reconstituir uma ocorrência policial, o depoimento de Jair evidencia as profundas transformações vividas por Teixeira de Freitas durante os anos 1960. A chegada de centenas de trabalhadores, impulsionada pelas obras de infraestrutura e pelo crescimento econômico da região, modificou costumes, ampliou a diversidade social e também gerou conflitos entre antigos moradores e recém-chegados.

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