TEIXEIRA DE FREITAS 1967 – A MEMÓRIA VIVA DO BAILE





 Por Daniel Rocha

Em 2020, o Tirabanha registrou o depoimento de um importante personagem da memória de Teixeira de Freitas: Jair de Freitas Correia, integrante da tradicional dupla Primo e Sobrinho. Presente no baile beneficente realizado em 1967, Jair ajudou a reconstituir um dos episódios mais marcantes da história do antigo povoado, quando uma festa organizada para arrecadar recursos destinados à construção da Igreja São Pedro terminou em uma violenta confusão.

O caso havia sido noticiado, à época, pelo jornal Folha de Nanuque, que relatou o esfaqueamento de dois soldados do destacamento policial de Caravelas durante o evento. O relato de Jair, no entanto, acrescenta detalhes que a reportagem não registrou, revelando aspectos do cotidiano e das transformações vividas por Teixeira de Freitas naquele período.

Segundo ele, o baile aconteceu em um salão de pensão localizado na antiga Praça dos Leões, onde atualmente funciona uma farmácia. Na década de 1960, o povoado era repleto de pensões que recebiam viajantes e trabalhadores. À noite, os geradores de energia movimentavam o cinema, os bailes e a vida social da comunidade.

A festa reunia famílias, casais e jovens que buscavam diversão em um ambiente considerado respeitoso. O objetivo era arrecadar recursos para a construção da nova igreja da comunidade, que mais tarde seria dedicada a São Pedro.

Entretanto, a tranquilidade foi interrompida pela presença de Sivaldo, funcionário do então DERBA (Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia), apontado por Jair como o protagonista da confusão.
Segundo ele, a partir de 1964, diversos trabalhadores vindos de Salvador chegaram ao povoado para atuar nas obras de infraestrutura da região. Embora muitos tenham sido bem recebidos, alguns despertavam desconfiança pelo comportamento considerado provocador.

Fotograma da Festa de São Sebastião.TV Sul Bahia 1996.

"Alguns, não todos, assediavam as mulheres e gostavam de ter fama de 'pegadores'. Queriam demonstrar valentia, andavam armados e provocavam brigas por onde passavam, como se fossem donos do povoado", recorda Jair.

Para o morador, o episódio do baile não pode ser compreendido isoladamente. Havia um ambiente de tensão provocado pelas rápidas mudanças sociais vividas por Teixeira de Freitas. Um dos motivos de insatisfação entre antigos moradores era a alteração do nome da capela local, tradicionalmente dedicada a São Sebastião.

Conforme lembra Jair, a mudança para São Pedro ocorreu por influência de migrantes que mantinham proximidade com o padre e participavam da campanha de construção da nova igreja.

Frei Elias Hooij registra fato semelhante ao afirmar que a comunidade passou a ter São Pedro como padroeiro "democraticamente, mas com alguma pressão do vigário". A nova igreja seria inaugurada em 9 de fevereiro de 1969, durante as comemorações da tradicional Festa de São Sebastião.

Outro ponto lembrado por Jair diz respeito ao apelido atribuído ao antigo povoado. Segundo ele, os moradores jamais chamaram Teixeira de Freitas de "Arrepiado".

"Na verdade era 'Rupiaria'. Esse negócio de 'Arrepiado' foi invenção de quem veio de fora. Assim como o nome Teixeira de Freitas, esse apelido não nasceu entre os moradores", afirma.

Fotograma da Festa de São Sebastião. Restaurado por IA

Na sua memória, foi justamente o comportamento de Sivaldo durante o baile que desencadeou o conflito. Após provocar o dono da pensão e insistir em permanecer na festa, iniciou-se uma briga que rapidamente fugiu do controle.

Os soldados Arlindo dos Santos Souza e José Geroastro, que faziam a segurança do evento, tentaram intervir e acabaram esfaqueados. Jair acrescenta um detalhe ausente na reportagem da época: segundo ele, Sivaldo também foi atingido por um disparo na perna efetuado por um dos policiais.
"Foi sangue para tudo quanto é lado", resume.

Mais do que reconstituir uma ocorrência policial, o depoimento de Jair evidencia as profundas transformações vividas por Teixeira de Freitas durante os anos 1960. A chegada de centenas de trabalhadores, impulsionada pelas obras de infraestrutura e pelo crescimento econômico da região, modificou costumes, ampliou a diversidade social e também gerou conflitos entre antigos moradores e recém-chegados.

Nesse sentido, o episódio do baile beneficente revela que o processo de desenvolvimento do povoado não foi marcado apenas pelo progresso material, mas também por disputas culturais, tensões sociais e diferentes formas de compreender o modo de viver em comunidade. A violência daquela noite, portanto, pode ser entendida como um reflexo das mudanças que moldavam a futura cidade de Teixeira de Freitas.

Fontes
Folha de Nanuque. Homem quis matar soldados a facadas em Teixeira de Freitas. Fevereiro de 1967.
HOOIJ, Frei Elias. Os Desbravadores do Extremo Sul da Bahia. Belo Horizonte, 2011.
Depoimento de Jair de Freitas Correia, concedido ao Tirabanha em 2 de dezembro de 2019.
Documentário Histórico da TV Sul Bahia (1996). Fotograma da Festa de São Sebastião.

*Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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