TEIXEIRA DE FREITAS 1967 - O BAILE DA IGREJA E A VIOLÊNCIA


Por Daniel Rocha

Em 2020, o Tirabanha resgatou um episódio curioso e violento ocorrido na década de 1960, quando Teixeira de Freitas ainda era um pequeno povoado do Extremo Sul da Bahia.

Naquele período, a localidade, também era conhecida por apelidos como "Arripiado", expressão utilizada por muitos moradores para retratar o clima frequente de discussões, bate-bocas e conflitos que marcavam o cotidiano do comércio local.

Segundo relatos da época, o apelido também fazia referência ao elevado número de agressões motivadas, muitas vezes, por desentendimentos banais. 

Um desses episódios foi registrado pelo jornal FN, em sua edição de 3 de fevereiro de 1967. A reportagem narra que dois soldados do destacamento policial de Caravelas, destacados para atuar em Teixeira de Freitas, foram esfaqueados durante um baile beneficente realizado em uma pensão. 

O evento tinha como objetivo arrecadar recursos para a construção e reforma da então capela de São Pedro, que mais tarde se tornaria uma das principais igrejas da cidade.

Como Teixeira de Freitas ainda não possuía hospital, os policiais feridos foram levados para o Hospital Santa Cruz, em Nanuque (MG). Ali, um dos soldados, Arlindo dos Santos Souza, relatou como tudo aconteceu.

Segundo seu depoimento, ele e um colega haviam sido designados para manter a ordem durante a festa quando um rapaz tentou entrar no baile sem comprar ingresso e sem autorização dos organizadores.

 Arlindo explicou que a cobrança era necessária porque toda a renda seria destinada à Igreja Católica de Teixeira de Freitas. O homem respondeu que não pretendia dançar, apenas observar o movimento. Mesmo contrariando a vontade do organizador, acabou entrando.

Pouco tempo depois, quando um conjunto musical vindo de Medeiros Neto iniciou a apresentação, o visitante chamou uma dama para dançar. A atitude desagradou o responsável pela festa, que pediu ao policial que chamasse sua atenção.

Advertido, o rapaz afirmou que deixaria o local. No entanto, o organizador continuou irritado e a situação começou a se agravar. Para evitar um conflito maior, Arlindo decidiu emprestar ao homem o valor do ingresso, permitindo que ele permanecesse legalmente no baile.

"Achei por bem emprestar o dinheiro do ingresso ao elemento, que aceitou e voltou novamente a dançar", relatou o soldado.

Já por volta das duas horas da madrugada, quando deixava a festa, o rapaz fez comentários irônicos dirigidos ao dono da pensão. Irritado, o organizador reagiu com um empurrão, iniciando uma nova confusão.

Arlindo contou que ele e o colega José Geroastro, que havia chegado pouco antes para reforçar o policiamento, tentaram impedir que o homem fosse agredido. Durante a intervenção, porém, o desconhecido conseguiu uma faca e atacou os dois policiais. José foi derrubado e esfaqueado. Ao tentar contê-lo, Arlindo também acabou ferido.

Segundo o depoimento, mesmo machucados, ambos dispararam contra o agressor.

"Depois de feridos, tanto eu como José Geroastro atiramos no desconhecido, mas achamos que não o atingimos e ele conseguiu fugir."

O episódio, hoje praticamente esquecido, revela um retrato da Teixeira de Freitas dos anos 1960: um povoado em crescimento, onde eventos comunitários reuniam moradores em torno de causas coletivas, como a construção da Igreja São Pedro, mas que também convivia com conflitos capazes de transformar uma noite de solidariedade em uma ocorrência policial. 

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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