MEDEIROS NETO 1968 – AS CARROÇAS E A MODERNIZAÇÃO



Por Daniel Rocha

Nos anos 1960 e 1970, o Brasil estava mergulhado no discurso de progresso e modernização, e Medeiros Neto, no extremo sul da Bahia, também embarcou nessa onda. Em 1968, o prefeito Jaime Ramalho Nóbrega começou a implementar mudanças que prometiam transformar a cidade.

Com a abertura de estradas e o tráfego intenso de caminhões das empresas madeireiras, os sinais de progresso começaram a aparecer. No entanto, a presença das carroças e trabalhadores carroceiros, uma espécie de antítese a cultura dos automóveis e modernidade, ainda era marcante nas ruas. 

Apesar de ter dado os primeiros passos rumo ao desenvolvimento, com a aquisição de caminhões e tratores,  a prefeitura ainda contava com a força de trabalhadores  e carroças para realizar serviços públicos essenciais. 

De acordo com o jornal local “O Desafio”, quatro carroças puxadas por cavalos faziam o serviço pesado: três para a limpeza pública e uma para o transporte de carne fresca.

Ao mesmo tempo, o prefeito se esforçava para modernizar a administração. Conforme o periódico de 1968,  como já dito, ele comprou um carro para a prefeitura, equipou os escritórios com novas máquinas de escrever e mobiliou as repartições com móveis modernos. 

Além disso, investiu em geradores elétricos, construiu um abatedouro de suínos na praça da feira e abriu novas escolas, visando melhorar a estrutura urbana.

Ainda assim, a modernização convivia com práticas tradicionais. Enquanto um carro novo circulava pela cidade, as carroças puxadas por cavalos continuavam a desempenhar suas funções, revelando uma situação paradoxal. 

Trabalhadores carroceiros, Medeiros Neto, 1968. Restaurada IA

Esse contraste destoava do otimismo propagado pelas revistas nacionais e jornais que exaltavam o desenvolvimento trazido pela BR-101 e os investimentos governamentais na região no período.

Isso significa dizer que o progresso avançava lentamente, mas as tradições locais se mantinham fortes, mesmo em uma fase de transição equilibrando as aspirações de modernização com práticas antigas com o pé no futuro e no passado.

Em resumo, esse paradoxo entre o discurso desenvolvimentista e a persistência de costumes rurais ilustrava como o Brasil rural resistia e se adaptava às pressões de uma modernidade global, mas que nas regiões menos favorecidas, ainda coexistiam com soluções simples e eficazes do passado. 

Daniel Rocha da Silva

Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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