RELATOS SOBRE OS ANOS 90 EM TEIXEIRA DE FREITAS: OS FAROFEIROS


Por  Daniel Rocha*
No Brasil a década de noventa ficou marcada pela estabilização da moeda, real, controle da inflação e à inserção do país na política econômica neoliberal.
Neste período a fim de viabilizar a expansão da celulose no Extremo sul da Bahia e facilitar o acesso de turistas a Costa das Baleias, o governo do estado pavimenta o trecho da BA-290 que liga a cidade de Teixeira de Freitas às vizinhas Alcobaça, Caravelas e Prado.
No contexto, alguns trabalhadores organizavam excursões de um dia à praia das cidades próximas fazendo uso de caminhões ou de ônibus fretados. Para diminuir os gastos com o passeio eles adotavam algumas estratégias como preparar e levar para o almoço uma saborosa farofa.
O prato era acompanhado por bebidas caseiras , café, sucos e industrializados como refrigerantes e cerveja, levadas em caixas de isopor com gelo.
O costume de preparar e comer farofas na praia rendeu aos teixeirenses o apelido de farofeiros, alcunha também dado as pessoas de outros estados que  realizava esse tipo de passeio.Segundo o dicionario Aurélio farofeiro é um fanfarrão, indivíduo que mora longe da praia e a frequenta levando comida para jornada.
Em sintonia com essa definição questionei: Quem eram e como se comportavam os farofeiros teixeirenses? Tal prática incomodava os comerciantes e anfitriões? Havia alguma conotação depreciativa e preconceituosa no emprego da palavra?
Para obter essa resposta conversei informalmente com três mulheres que participaram, de alguma forma, de excursões a praia durante a década de 1990 período escolhido para abordagem.
A primeira pessoa a ser ouvida foi a senhora Folha Lima, 48 anos, moradora do Bairro Jardim Europa.  Durante conversa informal recordou com alegria a época em que organizava esse tipo de passeio no bairro do Ulisses Guimarães onde morou até a década de 2000.
Conta que o primeiro passo era “juntar os amigos para planejar o passeio. O segundo era definir o destino, Alcobaça ou Prado, e sair em busca de interessados no bairro. Com a lista de excursionistas fechada cada um dava um pouco de dinheiro para o aluguel de um carro, ônibus ou caminhão, comprar bebidas e fazer a farofa.
A farofa era em geral feita de frango porém na falta da carne nada impedia que outro tipo poderia ser utilizado, recorda que em uma oportunidade fez com Bofe bovino.
Com a farofa pronta bastava se dirigir ao local marcado para o embarque que no Ulisses era enfrente a igreja católica “as 5h da manhã”. Na praia era armada uma barraca e em alguns casos era feito um churrasco e um pagode animado. “ Como no verão de 1994 em Alcobaça”.
Folha revela que nunca ouviu ou sentiu se ofendida com conversas ou observações depreciativa ou preconceituosa por parte dos moradores e tão pouco dos turistas inclusive lembra:
“Se juntavam ao grupo para brincar e comer farofa chamando uns aos outros de farofeiros. Era um tempo bom de namoro e boas amizades, todo mundo era unido”.
A segunda foi Aurenice Nunes (38 anos) moradora da Rua das Flores no bairro São Lourenço. Conta que no bairro era muito comum à realização deste tipo de passeio para Alcobaça. Recorda que no final da década de 1980 e início da década de 1990 acompanhou algumas com os vizinhos em ônibus locados.
O grupo de passageiros era formado  por  rapazes e moças, trabalhadores do comércio, autônomos, estudantes e domesticas, famílias e moradores de outra parte da cidade que iam subindo ao longo do percurso. “Saíamos cedo para voltar no finalzinho da tarde”.
Conta Aurenice que para a maioria o carro próprio para passeio se constituía um luxo e que a única forma de desfrutar de tal lazer no verão para alguns era através da reunião de interessados neste passeio. “Ficava mais barato”.
Sobre os comentários com conotação depreciativa e preconceituosa respondeu dizendo que nunca foi ou se sentiu ofendida com o termo, mesmo porque os primeiros a fazer brincadeiras com a situação era os próprios farofeiros que gostavam muito da brincadeira.
A terceira com quem conversei sobre o assunto foi a senhora  Maria Silva (53 anos) moradora do Wilson Brito, cujo ex-marido organizou diversas excussões para cidade de Alcobaça.
Conta nunca ter participado  por não gostar deste tipo de passeio, da bagunça, dos beberrões e de ser chamada de farofeira. Apesar do repúdio diz nunca ter tido notícias de algum tipo de discriminação. “Nem dos comerciantes nem dos moradores da cidade”.
De acordo com os relatos, durante o passeio acontecia de tudo, namoro na praia estendido ao mar, pais preucupados com crianças, briga por conta de interesses amorosos ou motivada por bebidas. Brincadeiras envolvendo a divisão da farofa e trajes de banho, tudo sem interferências internas.
Entretanto, prestes a concluir o texto, encontrei uma reportagem sobre a praia de Cumuruxatiba em um jornal, O estado de São Paulo, de janeiro de 1989, a fala de um comerciante do ramo de restaurantes chamado “Guga” que expressa uma insatisfação em relação ao hábito dos moradores das cidades vizinhas de não consumir nada dos comerciantes da praia.
“Ele olha preocupado para as mesas vazias de seu restaurante.Tá apinhado de gente mas é tudo veranista, das vizinhas Teixeira de Freitas ou Itamarajú. Veranistas que traz tudo de casa par ao mês inteiro” .
Considerando à fala do empresário local penso que no meio comercial a expressão “farofeiros” era, ou é, sinônimo de comportamento negativo, pois o costume de levar a farofa ou outros mantimentos não é interessante para os negócios do turismo que valoriza a figura do consumidor voraz.
Em meados da década de 2000 o costume começou a declinar com a asserção da cultura do individualismo e as facilidades de financiamento para compra  de veículos, sendo substituído por outras modalidades de excursões.
Porém, conforme enfatiza as pessoas consultadas, a farofa ainda faz parte da rotina de veraneio de alguns moradores principalmente na virada do ano quando o discurso mercantilista ligado ao turismo é  forte.
Fontes:
AlENCAR. José Roberto de. As praias onde o sol não deixa de brilhar. O Estado de São Paulo, São Paulo, 17/01/1989. Geral.P.44
PRODETUR NE-II . Costa das Baleias  Aspectos Socioambientais. Disponível em:http://edi.bnb.gov.br/content/aplicacao/prodetur/downloads/docs/cb_3_5_diagnostico_
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Daniel Rocha
Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.
E-mail: tirabanha@tirabanha.com.br
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